Sobre a emissão de Eurobonds por Angola


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Adebayo Vunge *
Depois de um roadshow em algumas das principais praças financeiras, nomeadamente Nova York, Boston e Londres, a delegação angolana, encabeçada pelo Ministro das Finanças, conseguiu mobilizar vários players do mercado internacional para investirem nos títulos emitidos por Angola, que na passada quarta-feira realizou, assim, na Bolsa de Londres, a sua segunda emissão de Eurobonds.
Paralelamente a este facto, noto com satisfação que os temas económicos começam a ditar a pauta editorial de muitos órgãos de comunicação social. Muito por força disso, mas não só, também por causa de uma literacia financeira que vai fazendo o seu caminho, há uma maior abordagem nas redes sociais sobre os efeitos económicos da realidade social. Ou seja, todas as semanas surgem factos económicos que despertam a maior euforia entre os internautas no Facebook, WhatsApp ou ainda Twitter.
Mas, a pretexto do resultado da colocação angolana de Eurobonds, devemos analisar profundamente o que se está a passar e qual será o contributo de cada um de nós para transformar este tempo em que vivemos num futuro com menos incertezas para todos.

Em primeiro lugar, devemos sublinhar o quanto esta emissão é uma verdadeira vitória para Angola, que leu bem os sinais do mercado, antecipou os trabalhos de casa e precisa apenas de consolidar a sua marcha. Ora vejamos: Angola fez duas emissões na mesma operação. Uma de longo prazo – dez anos (1,75 mil milhões de dólares com uma taxa de juro de 8,25 por cento) e outra de muito longo prazo – trinta anos (1,25 mil milhões de dólares com uma taxa de 9,3 por cento).

Tendo em conta as condições em que se encontra a nossa economia, a generalidade dos analistas não tem dúvidas: Angola fez um bom negócio. Não só por estar abaixo dos 9,5% outrora negociados, mas fundamentalmente porque o mercado valorizou o outlook positivo, que consiste em duas varáveis económicas e uma política. 
De um ponto de vista económico, está o efeito do acordo PCI (acrónimo em inglês que significa Instrumento de Coordenação de Políticas) assinado há poucos dias em Washington com o FMI – o que era expectável acontecer desde 2016, a par do efeito do aumento do preço do barril do petróleo no mercado internacional – esta uma variável mais volátil e fora do controle directo de Luanda. Uma combinação de reformas (disciplina) e uma conjuntura favorável (sorte, noutro linguajar e que não sabemos a sua longevidade). 

Do ponto de vista político, o risco Angola, na óptica habitualmente rigorosa e asséptica dos mercados, baixou consideravelmente após as eleições de 23 de Agosto, que ditaram a vitória de João Lourenço e o início de uma transição política na liderança, embora em sede do mesmo partido. Para atestar isso, o BMI Research, próximo da agência de rating Fitch, aponta a liderança de João Lourenço como garantia de estabilidade e de importantes reformas no campo político, económico e social, de que destacaríamos o combate à corrupção.

O resultado desta emissão confirma Angola como a terceira maior economia da África subsaariana, não obstante as dificuldades actuais, partilhando com a África do Sul e a Nigéria o palco dos três países do continente berço a conseguirem emitir dívida com uma maturidade de 30 anos. Esse é um marco simbólico e importante para aferir a confiança na economia e no desenvolvimento, o grau de transparência das decisões políticas e a sua aceitação entre os credores. O nível de escrutínio às contas públicas e a análise holística do país são elevados nesse tipo de operações. Quase nada escapa. Os investidores querem saber de tudo.

Ora, o que se questiona agora é o day after e este passa inexoravelmente pelo roteiro já traçado no Plano de Estabilização Macroeconómica e no Plano de Desenvolvimento Nacional. Será importante um compromisso nacional em prol das reformas, no quadro do naipe de medidas já anunciadas e que agora irá contar com a supervisão do Fundo Monetário Internacional. É justo destacar que a aprovação da Lei da Concorrência por unanimidade na Assembleia Nacional, facto sem precedentes, é talvez um sinal de que esse compromisso nacional também é possível. No fundo, teremos de passar da palavra aos actos. Tornar uma realidade a diversificação económica e tantos outros desígnios. 
É certo que a diversificação não se faz da noite para o dia. É um processo demorado. Há, neste caminho, pequenos indícios, que nos colocam um grão de esperança embora saibamos que precisamos ir mais depressa e ser mais ousados, fazendo pontes com os outros e potenciando o que temos/fazemos.

"Da palavra aos actos", título original da crónica publicada no Jornal de Angola a 7 de Maio de 2018


(*) Jornalista e Director do GCII do Ministério das Finanças. A opinião expressa aqui não vincula o Ministério das Finanças

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